Posts tagged ‘Mudança’

13 de abril de 2011

A gente se acostuma. Mas não devia.

Recebi esse texto de uma paciente e achei muito interessante e gostaria de compartilhar com vocês.

Com quantas e quantas coisas nos acostumamos em nossa vida e vamos levando no “piloto automático”?

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna.

O texto acima foi extraído do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

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8 de fevereiro de 2011

Mudança de vida – Matéria da Uol

Contribuição minha para a matéria que saiu hoje na Uol, texto de Ângela Senra.

Tenham uma ótima leitura.

http://estilo.uol.com.br/comportamento/ultimas-noticias/2011/02/06/mudar-de-vida-radicalmente-e-tendencia-perto-dos-40-anos.htm

06/02/2011 – 07h00

Mudar de vida radicalmente é tendência perto dos 40 anos

ANGELA SENRA
Colaboração para o UOL

  • Ana Paula Caldas deixou um alto cargo numa multinacional para se transformar na DJ Ana JohnAna Paula Caldas deixou um alto cargo numa multinacional para se transformar na DJ Ana John

As mudanças fazem parte da vida, do processo evolutivo. Mas muita gente tem problemas em efetuar transformações radicais em suas rotinas, especialmente na carreira, por comodismo ou medo, enquanto outras fazem a transição com naturalidade, sem grandes dramas. Para estas, a felicidade e a qualidade de vida vêm em primeiro lugar.

A psicóloga organizacional Rosana Bueno,da RB Consultoria, explica que há uma tendência apontando para mudanças de carreira atualmente e justamente quando as pessoas se encontram próximas à quarta década de vida. “Como vamos viver mais e não paramos de trabalhar depois da aposentadoria, fala-se até em terceira carreira. Por isso as pessoas buscam novos desafios”, diz ela. Outro motivo, segundo a psicóloga Anette Lewin, é que depois de 20 anos, muita gente se cansa de realizar o mesmo trabalho. “Nos ambientes corporativos, a ilusão de chegar à diretoria e à presidência com o tempo acaba ou diminui. Por outro lado, parece menos comum um médico ou profissional que trabalha com o bem-estar humano querer mudar de carreira”.

Mudança de vida

Foto 1 de 46 – A publicitária e bailarina Ana Paula Caldas deixou um alto cargo no departamento de marketing numa multinacional para dedicar-se exclusivamente ao seu hobby de DJ. Roberto Setton/UOL

Com a situação econômica do país mais estável é mais fácil tentar outros rumos. E o peso que se dá à carreira e ao status social também conta. “Quem tem o objetivo máximo de ganhar dinheiro, suporta melhor um emprego que o desagrada, mas paga bem”, diz Anette.

O ideal, segundo Anette, é tentar conciliar as duas ocupações, como ela mesma fez. Anos atrás Anette resolveu realizar seu sonho de juventude e virar atriz. “Me inscrevi num curso e comecei a trabalhar. Fiz comerciais e peças profissionais.”

Mudança programada

Para a psicóloga Adriana Takahashi (*), quando o trabalho não traz mais satisfação e passa a se tornar um martírio, é bom repensar e verificar se vale realmente a pena permanecer dessa forma, desgastando-se e se prejudicando mental e fisicamente. “Geralmente é neste momento que se avalia se vale correr o risco de fazer o que se gosta para se sentir mais pleno e satisfeito. Mas é importante ponderar os ganhos e as perdas”, diz ela. E se preparar. “Qualquer pessoa pode mudar de carreira, mas é preciso estar consciente de sua decisão e planejar, o que pode levar tempo. Verifique a viabilidade da mudança, considere que no início será difícil, já que provavelmente ganhará menos. Neste processo vale fazer pesquisas, conversar com familiares, amigos e profissionais da área em que pretende atuar”, explica Adriana.

Case de sucesso

Ricardo Alcerito Roque, 36 anos, em 2009 trocou o salário de executivo em uma multinacional pelo sonho de ter sua empresa e horários flexíveis para poder ver a filha crescer. “Depois de 14 anos trabalhando em ambiente corporativo altamente competitivo, que eu nunca gostei, a intolerância cresceu e pedi demissão”, diz ele.

  • Roberto Setton/UOLRicardo Alcerito Roque trocou o salário de executivo para fabricar biscoitos holandeses

A ideia do novo negócio já estava plantada. Ricardo queria fazer, aqui no Brasil, um biscoito holandês, o stroopwafel. Quando contava aos amigos, eles reagiam espantados. “Você largou tudo pra fazer bolacha?”, lembra rindo. Até que um deles virou seu sócio na empresa Sobremesas do Mundo. “Passei 40 dias na Holanda aprendendo a fabricar o doce. Voltei com uma máquina e iniciei a produção”.

Hoje ele também faz uma rosquinha da África do Sul, koeksusters e em breve lançará sobremesas típicas da Índia, México e Nova Zelândia. “Vamos dar a volta ao mundo”, diz Ricardo, que vende seu produto diretamente para as empresas do ramo e cafeterias.

Diferencial

A mudança de Ricardo foi programada ao longo dos anos, com investimentos que permitiram a abertura do negócio. Mesmo assim, para quem olha de fora parece coisa de louco, avalia Rosana. “Muita gente associa mudança com fracasso, não imagina que a pessoa está feliz”, explica.

A psicóloga Anette sofreu intolerância quando resolveu dar vazão ao seu lado artístico. “As psicólogas que trabalhavam no meu consultório achavam que eu tinha ficado maluca e me agrediram verbalmente e com atitudes grosseiras. Os atores do primeiro grupo que participei me diziam que aquele não era o meu lugar. Conciliar é possível, mas é preciso lidar com a pressão”.

A publicitária e bailarina Ana Paula Caldas, 39 anos, que há um ano e meio também deixou um alto cargo no departamento de marketing numa multinacional para dedicar-se exclusivamente ao seu hobby de DJ, conviveu especialmente com a desconfiança da família. “Este tipo de transformação assusta. É difícil entender como alguém super bem sucedido muda de carreira. Minha mãe ficou muito preocupada, mas hoje já compreendeu que estou muito mais feliz e realizada, pois além de trabalhar à noite, horário que mais gosto, posso acompanhar meus dois filhos crescerem. E inclusive ganhando mais do que antes”, diz Ana John, seu nome artístico.

O trunfo de Ana foi buscar o seu diferencial, tocando jazz. “Percebi que havia uma demanda para o mercado de luxo e investi nele. Hoje abro eventos como a Flip (Festa Literária de Paraty) e a Bienal de Arte. E no final do ano fechei o show do Caetano Veloso com a Maria Gadú, entre outros”, comemora.

Além disso, produz e dirige o pocket show Hollywood Monday, que acontece no restaurante Trindade às segundas-feiras, em São Paulo. Um espetáculo de jazz com canções clássicas do cinema, que tem a colaboração do crítico Rubens Ewald Filho. Ana também dá cursos de marketing para músicos e DJs, está abrindo uma empresa de agenciamento de artistas e planeja ter uma banda no futuro próximo.

Hora certa

Às vezes a mudança não é programada com antecedência. Foi o caso da nutricionista Débora Leite dos Reis Moreno, 38 anos. Ela trabalhou durante 13 anos em hospitais, mas o último emprego foi tão estressante que resultou no pedido de demissão. “Foi então que meu marido sugeriu que eu fizesse o curso de maquiagem que eu sempre quis e nunca tinha tido tempo.” Lá ela conheceu o maquiador Dario Marinho, com quem começou a trabalhar como sua assistente. Um ano e meio depois, Débora trabalha em dois salões, atende clientes particulares, faz eventos e participações em programas globais. “Nunca fiz nada na vida que gostasse tanto e sentisse tanto prazer”, diz ela, feliz, feliz.

  • Roberto Setton/UOLDébora Leite dos Reis Moreno deixou a nutrição para fazer o que sempre quis: maquiagem

No seu caso, ela contou com o apoio emocional e financeiro do maridão, que segurou as pontas enquanto ela fazia estágios sem ganhar um tostão. “Fui a muitos eventos só para aprender e fazer contatos.” Valeu a pena. Hoje ela até dá aulas sobre sua técnica.

Medo

Um pouquinho de frio na barriga no início é normal. “Claro que eu tinha receio de deixar o salário filé mignon, mas não me arrependo de maneira alguma”, diz Ricardo.

Para Débora, o problema foi o ganho menor. “No primeiro mês fiquei desesperada porque estava recebendo muito menos, mas no segundo consegui sete trabalhos, que aumentaram minha confiança”, conta a maquiadora.

Se você está pensando em seguir o mesmo caminho, avalie se está disposto a mudar seu padrão de vida, pelo menos por um tempo. “Também é importante não ser muito medroso, ter boa autoestima e sentir prazer em aprender algo novo. Lembre-se de que você sairá do cargo de expert para o de iniciante”, lembra Anette.

Adriana afirma ainda que toda mudança, mesmo sendo boa, demanda muita energia e é desgastante. “Mas o ganho com a troca, quando feita com seriedade e consciência, certamente compensa.”

(*) Adriana Takahashi, Psicóloga Clínica. Site: www.adrianatakahashi.com.br

22 de janeiro de 2011

Reportagem – Para ganhar, às vezes é preciso perder – Dez/2006

Momentos
Para ganhar, às vezes, é preciso perder
São José do Rio Preto, 21 de dezembro de 2006

Fabíola Zanetti

Quem gosta de perder algo ou alguém? Boa parte das pessoas não se encontra preparada para isso e, na maioria das vezes, não pára para refletir que, em alguns casos, perder é ganhar. As perdas e os ganhos fazem parte de um mesmo processo e não há como escalar o crescimento pessoal sem passar por momentos de renúncia e sofrimento. “A primeira perda tem início no nascimento, quando perdemos aquele lugar aconchegante e quentinho que era a barriga da mãe e ganhamos a oportunidade de estar nesse mundo”, diz a psicóloga clínica Adriana Takahashi, de São Paulo. As pessoas passam por situações de transformação durante todo o ciclo da vida. Quando aprendem a andar, a fase escolar, o primeiro emprego, namorado. “Na verdade, essas situações fazem parte de um processo de maturação e crescimento pessoal e emocional”, diz. Tudo depende de como a pessoa enfrenta as fases mais cruciais da vida, de acordo com a psicóloga. Geralmente, as mudanças, sejam elas boas ou ruins, geram estresse, desencadeiam receio, medo de enfrentar o que é desconhecido.

“Porém, se os medos não forem combatidos, o indivíduo ficará estagnado, desanimado e até mesmo deprimido, sem forças para resolver os obstáculos ou desafios que surgem no decorrer da vida. Esses são os que preferem não arriscar e ficar com aquilo que têm, mesmo que seja ruim”, afirma a psicóloga. Por outro lado, há pessoas que lidam melhor com situações de perdas pelo fato de serem mais amadurecidas emocionalmente, pois percebem que existe um motivo por trás das situações. “São indivíduos capazes de refletir e perceber que estavam acomodados em um relacionamento que se arrastava por muito tempo, ou em um emprego que não supria as necessidades de crescimento e desenvolvimento pessoal”, afirma. Para lidar melhor com essas situações, tanto de perdas quanto de ganhos, é preciso se auto-conhecer, saber o que sente, como se sente, refletir sobre o assunto por mais dolorido que seja e não culpar os outros pela situação atual, segundo a psicóloga cognitivo-comportamental de Rio Preto, Irene Araújo Corrêa.

Segundo ela, quando optamos por algo abrimos mão de outra coisa. Assim, somos frutos das escolhas que fazemos e das perdas no caminho. Contudo, quanto mais grave é a perda, do ponto de vista da pessoa, maior o impacto e a dificuldade de se refazer. “Muitas vezes, nossas perdas, pequenas ou grandes, são inexplicáveis para nós mesmos. Tentamos explicar, justificar, entender. Mas esse processo não precisa ser um sofrimento. Se a pessoa adquire discernimento e uma visão clara da realidade, as escolhas e as possíveis perdas podem ser encaradas como uma fase de mudança.” Para Irene, algumas pessoas sofrem mais porque não priorizam o que é importante na situação. “É preciso virar a página, entender que o passado deve ficar para trás, caso contrário se esquece de viver e aproveitar os momentos bons. Assim, o sentimento de perda parece não passar.” Para iniciar uma possível mudança é preciso verificar o quanto algo está desconfortável. Analisar todas as circunstâncias, as suas reais possibilidades, motivações, perspectivas, expectativas e, principalmente, o próprio comportamento, pois ele pode contribuir para gerar as mesmas situações em uma nova escolha.

Dicas:

1- Evite as expectativas exageradas sobre as situações
2- Alguns ganhos dependem do entendimento da perda
3- Você não enxergará um ganho se não aceitar a perda
4- Tenha coragem e tente mudar sua postura
5- Se reestruture após uma perda, mantendo uma visão realista da situação
6- Pense em alternativas, em novos posicionamentos
7- Vire a página realmente
8- Entenda que ganhar ou perder é uma contingência da vida que tem como conseqüência a mudança
9 – Lembre-se: é tão importante saber ganhar quanto saber perder

Serviço:
– Adrianan Takahashi, psicóloga clínica – Fone (11) 9950-0566 /2099-2292