16 de agosto de 2012

Sozinha na festa de casamento: Chega de pânico!

Colaboração para a Revista Caras, portal Noivas.

Boa leitura!

Adriana Takahashi

psicologa@adrianatakahashi.com.br

Postado por Caras às 17:38

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Hoje muitas mulheres acham normal sair desacompanhadas, mas outras ainda ficam apavoradas com a ideia de chegar sozinha em uma festa ou na balada. E você, faz parte de qual grupo?

Sem companhia para ir à festa? Arme-se de coragem e vá sozinha: ou você prefere ficar em casa a se divertir?

Antes só do que mal acompanhada. Você já deve ter ouvido esse ditado popular. Muito se fala sobre a mudança no comportamento das mulheres nas últimas décadas, desde que as feministas queimaram sutiãs em praça pública em 1968. Mas certas crenças e valores parecem ter resistido a essa revolução. Algumas mulheres, por exemplo, nunca tomam a iniciativa da paquera, pois acham que esse é um papel exclusivamente masculino. Outras se recusam a ir a eventos desacompanhadas, com medo do que os outros vão pensar. “Em uma situação como essa, a própria mulher pode estar se julgando e acaba se sentindo constrangida”, diz a psicóloga Adriana Takahashi. “O ato de julgar está na maior parte das pessoas, aprendemos a agir dessa forma desde crianças”, acrescenta.

A cerimonialista Beth Kos, que organiza dezenas de casamentos todos os anos e tem a oportunidade de observar algumas situações, acha que o cenário se transformou nos últimos anos. “O comportamento das mulheres mudou muito. Elas saem sozinhas, vão jantar, vão ao cinema, por que não a casamentos?”, pergunta. “As moças vão sós e, muitas vezes, com seus carros. Não bebem, se divertem e, na hora que acham que podem ‘virar abóbora’, desaparecem!”, conta.

E por que os homens não se sentem constrangidos ao chegar sozinhos em festas e baladas? “Com os homens é diferente, pois existe um preconceito (tanto de homens como das mulheres). É algo enraizado, cultural, uma condição imposta pela sociedade: se a mulher não tem ninguém, é vista como ‘encalhada’”, diz a psicóloga. E, cá entre nós, quem nunca fez esse comentário maldoso ao ver uma moça chegar sozinha a um evento? “Hoje em dia esse preconceito vem diminuindo, mas se livrar do estigma imposto por tantos anos não é tarefa fácil”, lembra Adriana.

Mas Beth acredita que as mulheres estão usufruindo cada vez mais da liberdade que conquistaram e mudando alguns comportamentos. “Muitas mulheres combinam de ir juntas, ou com amigos convidados”, diz. “Mas não pedem mais, como a um tempo atrás, para levar um acompanhante do sexo oposto”, revela. Ir com amigos é uma solução válida para quem não se sente à vontade de chegar sozinha. Afinal, a ideia é se sentir bem e se divertir.

Mas, na nossa humilde opinião, chegar sozinha não deveria gerar uma crise existencial. Afinal, estar sozinha não significa ser só. E, como tudo na vida, é uma questão de prática. Arme-se de coragem e faça ao menos uma tentativa antes de dizer que não consegue. E lembre-se: deixar de ir só porque não tem companhia é uma grande bobagem: você pode estar perdendo uma ótima chance de se divertir e conhecer pessoas novas.  “Ser e agir diferente da maioria não é para qualquer um. É preciso estar segura, sustentar a sua escolha (de ser ou estar sozinha), independentemente do que os outros vão pensar ou falar”, afirma a psicóloga. E isso vale para todos os aspectos da vida.

E você? Se não está namorando e é convidada para um casamento, fica constrangida de ir sozinha ou vai mesmo assim? Conte pra gente na nossa fan page: www.facebook.com/carasnoivas

Por Ana Paula de Andrade (anapaula@caras.com.br)

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3 de fevereiro de 2012

Medo, medinho, medão

Colaboração para o site: www.bebe.com.br da Editora Abril.

http://bebe.abril.com.br/materia/medo-medinho-medao

 

Comportamento

Medo, medinho, medão

Angela SenraAtualizado em 15.12.2011
 
medo-medinho-medao

Getty Images

Como lidar com os medos dos filhos e evitar que eles se transformem em pânico e fobias

Sentir medo é natural e saudável. “Sua função é proteger e dar limite”, explica a psicóloga clínica Elza Tamas, de São Paulo. Mas, quando paralisa e é cultivado, pode levar a fobias e crises de pânico. Na infância, quando o desconhecido mistura-se à fantasia, é muito comum que a criança tenha uma série de medinhos que podem – e devem – ser controlados.

 

Um dos mais comuns nessa fase da vida, especialmente entre os três e oito anos de idade, é o medo do escuro. “Uma simples sombra pode se transformar em algo assustador, porque, no escuro, a imaginação vai longe”, explica a psicóloga clínica Adriana Takahashi, também da capital paulista.

 

Para ajudar o pequeno a superar seus temores, os pais podem deixar a luz do corredor ou do banheiro acesa e a porta do quarto entreaberta. Outra solução é instalar pequenas luminárias de tomada, em formatos divertidos de estrelas, flores e animais, com lâmpadas coloridas. Elza sugere brincadeiras no escuro, para desmistificar qualquer receio.Uma dica é acender a luz, de repente, mostrando que vocês podem ser mais rápidos do que o escuro.

 

“Empregar recursos de desenhos animados também funciona, como simular um ataque ao monstro escondido nas sombras e esmagá-lo. É importante entrar na fantasia da criança, utilizar a mesma linguagem dela”, ensina a psicóloga. Ou seja, se seu filho afirmar que viu algo no escuro, você pode dar corda, perguntar como era, o que fez e questionar: ‘será que está lá ainda, vamos ver?’ “Dessa forma, você mergulha no mundo da imaginação e, depois, ajuda o pequeno a sair. Sem deboche e sem ficar repetindo que é bobagem da cabeça dele”, diz a psicoterapeuta especialista em neurolinguística Amélia Nascimento, de São Paulo.

 

Injeção sem trauma

 

Dói, é chato e ninguém gosta, mas, às vezes, é necessário tomar injeção. E criança, geralmente, se apavora ao ver uma seringa, com aquela agulha ameaçadora. Este tipo de medo pode ser decorrente de ameaças do tipo: “Se você não se comportar, vamos ao médico para que ele receite uma injeção”. Ou pode advir da insegurança dos pais, que também tremem nas bases na hora de levar uma picada. “A criança sente a apreensão deles e fica apavorada”, diz Adriana.

 

A dica para que o pequeno encare a vacina ou a injeção sem grandes traumas, é contar a ele sobre o procedimento no mesmo dia. Nunca converse com antecedência, pois como a criança não tem noção de tempo, ficará ansiosa. Também não é recomendado enganá-la, porque quando pega de surpresa, o escândalo é certo. “Se os pais disserem a verdade– que vai doer um pouco, mas passará logo—o pequeno ficará apreensivo, mas o choro terá duração menor e a situação fluirá de maneira controlada”, diz Adriana.

 

O bom e velho diálogo

 

Sentar e conversar é a receita que sempre dá certo, em vários momentos da vida. Quando se trata do medo do seu filho, não é diferente. “O temor pode ser sintoma de uma angústia que a criança não consegue classificar, ou de uma dificuldade que não sabe resolver sozinha. Falar sobre o problema ajuda em sua compreensão e superação”, diz Elza.

 

Para Adriana, o diálogo é importante também para os pais perceberem o que está acontecendo com a criança e observarem se o medo aumenta ou diminui com o passar do tempo. “O objetivo da conversa é, entre outros, identificar a origem do receio. Não adianta ficar falando que monstros não existem, ou que é tudo imaginação. Para a criança, a situação é real e assustadora.” Isso inclui os sonhos. Se seu filho não quiser dormir, com medo de sonhar ou acordar no meio da noite, apavorado com as imagens do seu inconsciente, Amelia sugere explicar que o sonho só acontece dentro da nossa cabeça, são apenas cenas, como em um filme.

 

Respeito e compreensão

 

Nem pense em ridicularizar a criança pelo medo que sente. “Os pais precisam ser compreensivos e devem proporcionar um ambiente acolhedor, para que o filho se sinta seguro e confiante. Só assim ela terá recursos para enfrentar seus medos ou torná-los menos aterrorizantes”, explica Adriana.

 

Ameaçar o pequeno, dizendo que vai entregá-lo ao guarda ou ao bicho-papão, só traz prejuízos. “São tentativas de manter o controle da criança, com base no medo, e não impõem respeito, como muita gente pensa”, afirma Elza.

 

Por outro lado, jogar um tomate de um andar alto de um prédio para mostrar, ao pequeno, como ele fica ao cair, é uma maneira de alertá-lo e garantir sua segurança.

 

As mentiras também merecem destaque nessa discussão. Muitos pais negam a realidade, na tentativa de proteger o filho. “É importante que a criança saiba que existe morte, assalto e pessoas que podem lhe fazer mal. Só assim elas aprendem a se proteger”, explica Amélia. Isso não quer dizer que precisamos contar tudo. Quando ela perguntar se você, ela ou a vovó vão morrer, por exemplo, você pode dizer que sim, mas que vai demorar muuuuito tempo. “E se ela teme um acidente de carro ou de avião, você pode falar que essas tragédias realmente acontecem, mas com poucas pessoas. E que a maioria, como ela, está protegida. Você não mente, nem a deixa insegura”, exemplifica a especialista.

 

Fobias e pânico

 

O medo faz parte do desenvolvimento humano e serve como recurso de defesa e proteção. Em uma situação de perigo, nosso instinto de conservação vem à tona e tentamos nos manter longe da ameaça. Mas, em excesso e sem tratamento adequado, o temor pode se tornar patológico, transformando-se em fobias ou transtorno do pânico, distúrbios que impedem a pessoa de viver plenamente seu dia a dia.

 

Se o medo persistir e se intensificar por muito tempo, pode ser, sim, indício de algo mais sério. Nesse caso, é preciso buscar ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra.

 

Portanto, é preciso muito cuidado ao passar informações para a criança. “Ela se baseia no que vê e vivencia. Conversas, gestos e expressões dos pais servem de modelos. Se a mãe, por exemplo, teme que algo terrível aconteça, a criança percebe sua insegurança e passa a sentir o mesmo medo”, explica Adriana.

 

Amelia concorda: “Os pais precisam relaxar e evitar transmitir tensão aos filhos. Prestar atenção no tom de voz que usam também é essencial.”

 

Crescer amedrontado não é bom para nenhuma criança. É fundamental ensiná-la a se proteger dos perigos básicos, como prestar atenção ao atravessar a rua, não ficar perto de janelas em locais altos, manter-se longe do fogo, não aceitar presentes de estranhos, nem se afastar dos pais em lugares públicos. Esses alertas são necessários e não se comparam aos temores que muitos pais incutem na cabeça dos filhos. “Os adultos vivem sob tensão. Se nós nos sentimos impotentes diante dos perigos, imagine a criança. Por isso acho bom evitar televisão. A criança não deve ser exposta a imagens aterrorizantes”, diz Elza.

 

Os programas de adultos, como novelas, telejornais, reality shows e filmes de terror não devem fazer parte da programação infantil antes dos doze anos. “Até essa idade, a criança percebe tudo que vê como real, não é capaz de entender metáforas nem ironias. Só a partir dali é que começa a desenvolver o pensamento abstrato, que possibilita diferenciar o real do ilusório”, explica Adriana.

7 de julho de 2011

Sentar-se à janela do avião

Gostaria de compartilhar com vocês outro texto que sempre gostei muito, escrito pelo Alexandre Garcia, jornalista.

É uma reflexão sobre como conduzimos a nossa vida, o nosso dia-a-dia. Nos últimos tempos tenho percebido o quanto as pessoas se mostram muito ocupadas, sem tempo para nada, em uma correria sem fim.

E nessa correria as pessoas deixam de ver, apreciar ou contemplar coisas, situações ou pessoas e passam a viver no piloto automático. Passam a não dar importância ou a não perceber os pequenos detalhes que a vida proporciona, como aquela linda árvore no meio daquela avenida super movimentada, um pôr-do-sol inusitado em meio a tantos edifícios, os pássaros voando livres, o amor, o carinho e o cuidado que o outro sente por nós, aproveitar os momentos livres para curtir a família, os filhos, os netos, os amigos.

Se mantivermos a nossa vida assim, no piloto automático, tudo isso se perde, tudo perde o seu significado e passa a não ter o seu devido valor. Sentar-se à janela para contemplar todos os momentos da vida é uma escolha que acredito que todos deveriam fazer para não perder um instante sequer dessa passagem. Sejam esses momentos alegres ou tristes. Sim, os momentos tristes também fazem parte desse processo, sem eles não nos conheceríamos tão bem, são vivências que nos trazem experiência, amadurecimento, crescimento pessoal e, principalmente, aprendizado.

A dinâmica da vida é assim, ela se transforma a cada instante, a cada segundo!

Sente-se à janela e aprecie e contemple a sua viagem!

Foto: Craig C. Olsen – National Geographic

Sentar-se à Janela do Avião (Alexandre Garcia)

Era criança quando, pela primeira vez, entrei em um avião.

A ansiedade de voar era enorme. Eu queria me sentar ao lado da janela de qualquer jeito, acompanhar o vôo desde o primeiro momento e sentir o avião correndo na pista cada vez mais rápido até a decolagem. Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens, chegando ao céu azul. Tudo era novidade e fantasia…

Cresci, me formei e comecei a trabalhar.

No meu trabalho, desde o início, voar era uma necessidade constante. As reuniões em outras cidades e a correria me obrigavam, às vezes, a estar em dois lugares num mesmo dia. No início pedia sempre poltronas ao lado da janela, e, ainda com olhos de
menino, fitava as nuvens, curtia a viagem, e nem me incomodava de esperar um pouco mais para sair do avião, pegar a bagagem, coisa e tal. O tempo foi passando, a correria aumentando, e já não fazia questão de me sentar à janela, nem mesmo de ver as nuvens, o sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse. Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e sair, me acomodar rápido e sair rápido. As poltronas do corredor agora eram exigência.
Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com tudo, menos com a viagem, com a paisagem, comigo mesmo.

Por um desses maravilhosos ‘acasos’ do destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa, precisando chegar em Curitiba o mais rápido possível… O vôo estava lotado e o único lugar disponível era uma janela, na última poltrona.
Sem pensar concordei de imediato, peguei meu bilhete e fui para o embarque. Embarquei no avião, me acomodei na poltrona indicada: a janela. Janela que há muito eu não via, ou melhor, pela qual já não me preocupava em olhar. E, num rompante, assim que o avião decolou, lembrei-me da primeira vez que voara. Senti novamente e estranhamente aquela ansiedade, aquele frio na barriga. Olhava o avião rompendo as nuvens escuras até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu. Era de um azul tão lindo como jamais tinha visto. E também o sol, que brilhava como se tivesse acabado de nascer.

Naquele instante, em que voltei a ser criança, percebi que estava deixando de viver um pouco a cada viagem em que desprezava aquela vista…

Pensei comigo mesmo: será que em relação às outras coisas da minha vida eu também não havia deixado de me sentar à janela, como, por exemplo, olhar pela janela das minhas amizades, do meu casamento, do meu trabalho e convívio pessoal?

Creio que aos poucos, e mesmo sem perceber, deixamos de olhar pela janela da nossa vida. A vida também é uma viagem e se não nos sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens, que são nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos. Se viajarmos somente na poltrona do corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá aonde, perderemos a oportunidade de apreciar as belezas que a viagem nos oferece.

Se você também está num ritmo acelerado, pedindo sempre poltronas do corredor, para embarcar e desembarcar rápido e ‘ganhar tempo’, pare um pouco e reflita sobre aonde você quer chegar. A aeronave da nossa existência voa célere e a duração da viagem não é anunciada pelo comandante. Não sabemos quanto tempo ainda nos resta.

Por essa razão, vale a pena sentar próximo da janela para não perder nenhum detalhe.

Afinal, a vida, a felicidade e a paz são caminhos e não destinos.

(*) Adriana Takahashi – Psicóloga Clínica – email: psicologa@adrianatakahashi.com.br

13 de abril de 2011

A gente se acostuma. Mas não devia.

Recebi esse texto de uma paciente e achei muito interessante e gostaria de compartilhar com vocês.

Com quantas e quantas coisas nos acostumamos em nossa vida e vamos levando no “piloto automático”?

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna.

O texto acima foi extraído do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

23 de março de 2011

Children see…. children do

Os pais são os principais modelos para as crianças, depois deles os outros modelos de identificação são os familiares, babá, professores etc.

E é imitando que a criança cresce, se desenvolve e apreende o mundo à sua volta.

O que queremos transmitir para nossas crianças?

O vídeo vale a reflexão.

8 de fevereiro de 2011

Mudança de vida – Matéria da Uol

Contribuição minha para a matéria que saiu hoje na Uol, texto de Ângela Senra.

Tenham uma ótima leitura.

http://estilo.uol.com.br/comportamento/ultimas-noticias/2011/02/06/mudar-de-vida-radicalmente-e-tendencia-perto-dos-40-anos.htm

06/02/2011 – 07h00

Mudar de vida radicalmente é tendência perto dos 40 anos

ANGELA SENRA
Colaboração para o UOL

  • Ana Paula Caldas deixou um alto cargo numa multinacional para se transformar na DJ Ana JohnAna Paula Caldas deixou um alto cargo numa multinacional para se transformar na DJ Ana John

As mudanças fazem parte da vida, do processo evolutivo. Mas muita gente tem problemas em efetuar transformações radicais em suas rotinas, especialmente na carreira, por comodismo ou medo, enquanto outras fazem a transição com naturalidade, sem grandes dramas. Para estas, a felicidade e a qualidade de vida vêm em primeiro lugar.

A psicóloga organizacional Rosana Bueno,da RB Consultoria, explica que há uma tendência apontando para mudanças de carreira atualmente e justamente quando as pessoas se encontram próximas à quarta década de vida. “Como vamos viver mais e não paramos de trabalhar depois da aposentadoria, fala-se até em terceira carreira. Por isso as pessoas buscam novos desafios”, diz ela. Outro motivo, segundo a psicóloga Anette Lewin, é que depois de 20 anos, muita gente se cansa de realizar o mesmo trabalho. “Nos ambientes corporativos, a ilusão de chegar à diretoria e à presidência com o tempo acaba ou diminui. Por outro lado, parece menos comum um médico ou profissional que trabalha com o bem-estar humano querer mudar de carreira”.

Mudança de vida

Foto 1 de 46 – A publicitária e bailarina Ana Paula Caldas deixou um alto cargo no departamento de marketing numa multinacional para dedicar-se exclusivamente ao seu hobby de DJ. Roberto Setton/UOL

Com a situação econômica do país mais estável é mais fácil tentar outros rumos. E o peso que se dá à carreira e ao status social também conta. “Quem tem o objetivo máximo de ganhar dinheiro, suporta melhor um emprego que o desagrada, mas paga bem”, diz Anette.

O ideal, segundo Anette, é tentar conciliar as duas ocupações, como ela mesma fez. Anos atrás Anette resolveu realizar seu sonho de juventude e virar atriz. “Me inscrevi num curso e comecei a trabalhar. Fiz comerciais e peças profissionais.”

Mudança programada

Para a psicóloga Adriana Takahashi (*), quando o trabalho não traz mais satisfação e passa a se tornar um martírio, é bom repensar e verificar se vale realmente a pena permanecer dessa forma, desgastando-se e se prejudicando mental e fisicamente. “Geralmente é neste momento que se avalia se vale correr o risco de fazer o que se gosta para se sentir mais pleno e satisfeito. Mas é importante ponderar os ganhos e as perdas”, diz ela. E se preparar. “Qualquer pessoa pode mudar de carreira, mas é preciso estar consciente de sua decisão e planejar, o que pode levar tempo. Verifique a viabilidade da mudança, considere que no início será difícil, já que provavelmente ganhará menos. Neste processo vale fazer pesquisas, conversar com familiares, amigos e profissionais da área em que pretende atuar”, explica Adriana.

Case de sucesso

Ricardo Alcerito Roque, 36 anos, em 2009 trocou o salário de executivo em uma multinacional pelo sonho de ter sua empresa e horários flexíveis para poder ver a filha crescer. “Depois de 14 anos trabalhando em ambiente corporativo altamente competitivo, que eu nunca gostei, a intolerância cresceu e pedi demissão”, diz ele.

  • Roberto Setton/UOLRicardo Alcerito Roque trocou o salário de executivo para fabricar biscoitos holandeses

A ideia do novo negócio já estava plantada. Ricardo queria fazer, aqui no Brasil, um biscoito holandês, o stroopwafel. Quando contava aos amigos, eles reagiam espantados. “Você largou tudo pra fazer bolacha?”, lembra rindo. Até que um deles virou seu sócio na empresa Sobremesas do Mundo. “Passei 40 dias na Holanda aprendendo a fabricar o doce. Voltei com uma máquina e iniciei a produção”.

Hoje ele também faz uma rosquinha da África do Sul, koeksusters e em breve lançará sobremesas típicas da Índia, México e Nova Zelândia. “Vamos dar a volta ao mundo”, diz Ricardo, que vende seu produto diretamente para as empresas do ramo e cafeterias.

Diferencial

A mudança de Ricardo foi programada ao longo dos anos, com investimentos que permitiram a abertura do negócio. Mesmo assim, para quem olha de fora parece coisa de louco, avalia Rosana. “Muita gente associa mudança com fracasso, não imagina que a pessoa está feliz”, explica.

A psicóloga Anette sofreu intolerância quando resolveu dar vazão ao seu lado artístico. “As psicólogas que trabalhavam no meu consultório achavam que eu tinha ficado maluca e me agrediram verbalmente e com atitudes grosseiras. Os atores do primeiro grupo que participei me diziam que aquele não era o meu lugar. Conciliar é possível, mas é preciso lidar com a pressão”.

A publicitária e bailarina Ana Paula Caldas, 39 anos, que há um ano e meio também deixou um alto cargo no departamento de marketing numa multinacional para dedicar-se exclusivamente ao seu hobby de DJ, conviveu especialmente com a desconfiança da família. “Este tipo de transformação assusta. É difícil entender como alguém super bem sucedido muda de carreira. Minha mãe ficou muito preocupada, mas hoje já compreendeu que estou muito mais feliz e realizada, pois além de trabalhar à noite, horário que mais gosto, posso acompanhar meus dois filhos crescerem. E inclusive ganhando mais do que antes”, diz Ana John, seu nome artístico.

O trunfo de Ana foi buscar o seu diferencial, tocando jazz. “Percebi que havia uma demanda para o mercado de luxo e investi nele. Hoje abro eventos como a Flip (Festa Literária de Paraty) e a Bienal de Arte. E no final do ano fechei o show do Caetano Veloso com a Maria Gadú, entre outros”, comemora.

Além disso, produz e dirige o pocket show Hollywood Monday, que acontece no restaurante Trindade às segundas-feiras, em São Paulo. Um espetáculo de jazz com canções clássicas do cinema, que tem a colaboração do crítico Rubens Ewald Filho. Ana também dá cursos de marketing para músicos e DJs, está abrindo uma empresa de agenciamento de artistas e planeja ter uma banda no futuro próximo.

Hora certa

Às vezes a mudança não é programada com antecedência. Foi o caso da nutricionista Débora Leite dos Reis Moreno, 38 anos. Ela trabalhou durante 13 anos em hospitais, mas o último emprego foi tão estressante que resultou no pedido de demissão. “Foi então que meu marido sugeriu que eu fizesse o curso de maquiagem que eu sempre quis e nunca tinha tido tempo.” Lá ela conheceu o maquiador Dario Marinho, com quem começou a trabalhar como sua assistente. Um ano e meio depois, Débora trabalha em dois salões, atende clientes particulares, faz eventos e participações em programas globais. “Nunca fiz nada na vida que gostasse tanto e sentisse tanto prazer”, diz ela, feliz, feliz.

  • Roberto Setton/UOLDébora Leite dos Reis Moreno deixou a nutrição para fazer o que sempre quis: maquiagem

No seu caso, ela contou com o apoio emocional e financeiro do maridão, que segurou as pontas enquanto ela fazia estágios sem ganhar um tostão. “Fui a muitos eventos só para aprender e fazer contatos.” Valeu a pena. Hoje ela até dá aulas sobre sua técnica.

Medo

Um pouquinho de frio na barriga no início é normal. “Claro que eu tinha receio de deixar o salário filé mignon, mas não me arrependo de maneira alguma”, diz Ricardo.

Para Débora, o problema foi o ganho menor. “No primeiro mês fiquei desesperada porque estava recebendo muito menos, mas no segundo consegui sete trabalhos, que aumentaram minha confiança”, conta a maquiadora.

Se você está pensando em seguir o mesmo caminho, avalie se está disposto a mudar seu padrão de vida, pelo menos por um tempo. “Também é importante não ser muito medroso, ter boa autoestima e sentir prazer em aprender algo novo. Lembre-se de que você sairá do cargo de expert para o de iniciante”, lembra Anette.

Adriana afirma ainda que toda mudança, mesmo sendo boa, demanda muita energia e é desgastante. “Mas o ganho com a troca, quando feita com seriedade e consciência, certamente compensa.”

(*) Adriana Takahashi, Psicóloga Clínica. Site: www.adrianatakahashi.com.br

27 de janeiro de 2011

Reportagem – Vire o jogo e saia da crise

RESILIÊNCIA

por Fabricia Zamataro 

http://www.motivaonline.com.br/artigo/43949-vire-o-jogo-e-saia-da-crise.html

 

Todos nós já passamos pelo menos uma vez na vida por uma crise. As situações difíceis podem acontecer em momentos de mudança repentina, morte, doença, problemas financeiros, separação, gravidez não planejada, etc.

Segundo a psicóloga Adriana Takahashi, na língua chinesa e nos negócios, crise e oportunidade são representadas por um mesmo ideograma. “Num momento desfavorável, teremos sempre a chance de escolher: ou renascemos da crise ou nos afundamos nela”, explica. Toda mudança gera estresse, seja ela boa ou ruim. Corajoso não é aquele que não sente medo, e sim o que o enfrenta e se supera diante de situações difíceis. Apesar de a crise ser um momento negativo, a Adriana garante que é uma oportunidade na qual é possível fazer uma reflexão sobre fatos e acontecimentos de nossa vida, para uma posterior atitude positiva.

No entanto, o que fazer quando se está em uma crise? Para Gustavo Boog, consultor e terapeuta organizacional, o primeiro passo para sair de uma é reconhecer e aceitá-la. “Só podemos modificar e transformar aquilo que aceitamos. Quando estamos no meio de uma crise tudo o que queremos é sair dela, mas depois de um tempo, geralmente, começamos a perceber que aquela situação teve muitos aspectos positivos que nos impulsionaram para mudanças e a um patamar mais elevado de consciência”, comenta.

Enfrente as dificuldades

Quando estamos em crise não temos como prever quanto tempo ficaremos nessa situação. Sua duração depende de diversos fatores e, principalmente, varia de pessoa para pessoa. Algumas se recuperam mais rápido que outras, superam os obstáculos e encontram forças para recomeçar.

Nessa hora, segundo Gustavo, o autoconhecimento é uma ferramenta fundamental, pois desvenda nossas formas de reagir às situações, limitações e nossos potenciais. Quanto mais a pessoa se conhecer, mais chance terá de sair fortalecida. Outro fator importante é não se deixar engolir pela crise. Muitas pessoas que passam por momentos difíceis tendem a se isolar, distanciar de sua rotina, trabalho e atividades.

De acordo com Gustavo, a paralisia é devastadora. Ele acredita que se nos colocarmos num plano mais elevado, obteremos força para lidar com as crises e dificuldades: “Cada crise tem riscos e oportunidades. Os riscos já vêm prontos e são avassaladores. As oportunidades são sementes que germinarão a seu tempo. A qualidade da resiliência é fundamental para lidar com as crises”.

Busque ajuda

Para a maioria das pessoas é difícil criar forças por conta própria, e a busca por ajuda se torna uma necessidade. Segundo a psicanalista e terapeuta Sonia Novinsky, a crise surpreende porque você não sabia que tinha estados emocionais críticos se acumulando sem serem integrados progressivamente na consciência e serem superados.

Para ela, a ajuda pode vir de um parente, amigo, profissional ou até mesmo de um conhecido. “O importante é escolher alguém que não vá dar conselhos ou julgá-lo, pois ajudar não é isso! Ajudar é mostrar o caminho para se integrar e se conscientizar de suas emoções negativas, ansiedades, medo de quebrar hábitos estabelecidos há muito ou imagens de si que custam caro demais”, explica.

Gustavo defende que se olharmos para traz e recordarmos as crises pelas quais passamos com certeza encontraremos grandes oportunidades de desenvolvimento pessoal. “As crises são alertas que nos mostram que mudanças e transformações precisam ter lugar. Gosto especialmente da frase de Jung, que diz ‘Só permanece verdadeiro aquilo que se transforma’. E as crises são nossas oportunidades de transformação”, conta. Se identificarmos isso e conseguirmos olhar além da crise, poderemos buscar nela, com ou sem ajuda, novas oportunidades de crescimento. Assim, depois dela, o jogo sempre vai virar a seu favor.

6 dicas para virar o jogo

No livro Bem-vindo a sua Crise, a autora Laura Day fala sobre como utilizar os momentos difíceis para criar a vida que você quer. Confira algumas dicas para virar o jogo e sair de uma crise.

» Aceite quem você é.
» Aplique primeiros socorros à sua vida – aja como se tivesse o poder da situação.
» Analise a situação e busque melhorá-la.
» Aja como se você fosse seu próprio pai.
» Não deixe o trabalho de lado, por mais monótono que pareça.
» Peça a ajuda de outras pessoas – você não consegue resolver tudo sozinho.

PARA SABER MAIS:
Livro: Bem-vindo a sua Crise
Autora: Laura Day
Editora: BestSeller

* Adriana Takahashi, psicóloga clínica. Site: www.adrianatakahashi.com.br

27 de janeiro de 2011

A hora de dizer adeus

Se no papel o divórcio ficou mais simples e rápido, no campo das emoções o processo ainda é doloroso

 Marlene Maeda

http://www.alternativa.co.jp/MateriasRevista.aspx?idMateria=42&IdRevista=1&IDSessao=29&IdEdicao=4

 

Ao contrário do casamento, que é um momento de sonhos e encantamento, no qual tudo parece perfeito, o processo de separação quase sempre é doloroso e solitário. De repente, todas as doces promessas contidas no “até que a morte os separe” parecem conspirar contra e se transformam em ingredientes que aumentam ainda mais a angústia do término. “Por que isso aconteceu conosco?” é uma pergunta comum nessa hora. O certo é que ninguém se casa pensando em separação, mas ela acontece e muitas vezes pega um dos parceiros de surpresa.

Segundo dados estatísticos do IBGE, em 2005 os divórcios tiveram acréscimo de 15,5% em relação a 2004. A elevação do número de divórcios em relação ao de separações judiciais, ocorrida no período compreendido entre 1995 e 2005, revela uma gradual mudança de comportamento na sociedade brasileira, que passou a aceitar o divórcio com maior naturalidade. Antes, os casais separados eram discriminados pela sociedade, principalmente as mulheres. Hoje, com as conquistas e mudanças de comportamento delas, essa visão sofreu uma modificação. Nas separações litigiosas, as estatísticas do Registro Civil mostram que a iniciativa coube, na maior parte das vezes, às mulheres, responsáveis por mais de 70% dos rompimentos e por cerca de 55% dos divórcios não-consensuais. Em mais de 80% dos casamentos desfeitos registrou-se a presença de filhos menores de 18 anos, que ficaram com as mães.

“Quando um dos cônjuges decide pela separação, não quer dizer que essa ocorrerá de fato ou imediatamente. Existem fatores que acabam por influenciar a decisão da pessoa. Ela pode estar confusa, não tão esclarecida, o cônjuge que pede a separação pode querer dar mais uma chance para que o casamento não se desfaça, pode ficar na dúvida se essa seria a decisão mais adequada etc. Não é tão simples quanto as pessoas imaginam. Antes da separação ou divórcio ocorrer de fato, a maioria dos casais tentou de uma maneira ou de outra resgatar o relacionamento, mas às vezes as brigas, discussões e indiferenças foram tão grandes que o desgaste da relação é maior e a separação acaba sendo inevitável. É possível ouvir relatos do tipo: ele(a) nunca me escuta, não adianta falar, ele(a) não me entende, desisto etc.”, opina a psicóloga Adriana da Silva Takahashi, de São Paulo.

Segundo a profissional, o processo é doloroso mesmo quando as partes entram em acordo. “Todos sofrem com as mudanças e tentam passar pela fase de adaptação da nova rotina da melhor forma possível. Casais em conflito e com filhos tendem a adiar a separação por acreditarem que estarão prejudicando o desenvolvimento emocional das crianças. Porém, se é um casal que discute muito e não se respeita, é melhor que a separação ocorra o mais rápido possível. A saúde mental das crianças está associada ao bom convívio dos pais e à forma de relacionamento adequada entre ambos. Caso esses pais estejam sempre em desavença, discutindo, em conflito constante (vivendo juntos ou não), as crianças estarão em risco ao crescer em uma família em constante desentendimento, que não possui uma estrutura adequada para sua criação”, declara.

Adriana explica que a adaptação dos filhos irá depender, por um lado, da quantidade e qualidade do contato com a figura parental que não é detentora da guarda e, por outro, do ajustamento psicológico e da capacidade de cuidado daquele que possui o direito da guarda, do nível de conflito entre os pais após a separação ou o divórcio, do nível de dificuldades sócio-econômicas e do número de eventos estressantes adicionais que incidiram sobre a vida familiar. “Durante o processo de separação todos na família sofrem com as mudanças, e as crianças sentem medo e angústia, pois podem imaginar que serão abandonadas pelo outro cônjuge. É necessário que se converse com elas para que se sintam o mais seguras possível dentro do processo de separação”, ensina a psicóloga.

A profissional lembra também que as crianças podem sofrer uma mudança no comportamento (tornar-se mais agressivas, agitadas, desatentas etc.), o que vai influenciar seu dia-a-dia na escola, no convívio social e familiar. “Cabe aos pais, familiares e escola observar o comportamento infantil e caso percebam alguma alteração, conversar com as crianças e esclarecer seus medos e dúvidas. Não obtendo resultado, é válido buscar ajuda especializada para que elas crianças encontrem o suporte necessário e os pais consigam prover esse suporte de que elas tanto precisam”, diz.

Para os casais que se encontram em crise, ela lembra que o diálogo é primordial para o amadurecimento e crescimento do relacionamento. “É preciso que tenham uma conversa franca e aberta, é preciso dialogar, comunicar-se um com o outro, ser ouvido e saber ouvir, respeitar. A partir do momento em que o casal passa a se ofender e desrespeitar o outro, o conflito aumenta e aí fica ainda mais difícil a possibilidade de uma reconciliação ou reajuste do casamento. Ambos saem magoados do relacionamento, ressentidos. É preferível que, caso haja uma desavença ou discussão, cada um respeite o tempo do outro. Se não der para resolver naquele momento, espere e resolva mais tarde, quando ambos estiverem mais calmos e dispostos a dialogar. Caso contrário, a discussão continuará e nada será resolvido”, aconselha ela.

“Na maioria das vezes, o casal entra em crise por falta de diálogo, por não respeitar a individualidade do outro e por sempre achar que o outro tem de adivinhar o que o parceiro quer, o que o chateou etc. Aí começam as frustrações, desentendimentos e discussões, que se não forem resolvidos e esclarecidos, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, resultarão em separação”, alerta.

Mudança de modelos 

 A psicóloga Adriana da Silva Takahashi diz que, por muitos anos, os casais tinham um perfil bem marcado em que o homem era o provedor da casa, o que trabalhava para sustentar a família, e a mulher a que cuidava da casa, dos filhos, dos afazeres domésticos etc. Com o decorrer do tempo, esse perfil foi mudando e hoje em dia podemos ver famílias em que tanto o marido quanto a esposa trabalham. As mulheres foram conquistando seu espaço e passaram também a trabalhar fora de casa, conquistando autonomia e independência, até para poder ajudar no orçamento da família. As conquistas femininas, na opinião da psicóloga, têm provocado mudanças significativas nas relações entre homens e mulheres e na estruturação familiar.

“Quando duas pessoas decidem se unir, elas estão na verdade se propondo a compartilhar a vida, comprometendo-se uma com a outra. Adaptar-se a um novo ritmo de vida, a uma outra pessoa, ceder em alguns momentos, buscando sempre o equilíbrio no relacionamento. Além do contrato que todos conhecemos, no papel, existe um outro ‘contrato’ velado (que cada um carrega consigo). Cada um tem uma perspectiva frente ao casamento. Muitas pessoas depositam expectativas, sonhos e realizações no companheiro, o que é muito perigoso, pois o parceiro que ‘carrega’ essas expectativas não tem idéia de que o outro espera algo dele (a felicidade, por exemplo). Esse é o contrato velado, o que não foi conversado antes de tomarem a decisão. Por exemplo, a mulher pensa em ter três filhos e o marido pensa em ter apenas um: em algum momento isso será motivo de discussão, de conflito. A esposa até podia saber dessa condição antes de se casarem, mas acreditou que o marido mudaria de idéia ou que ela fosse capaz de mudá-lo”, compara.

Outra situação que pode desencadear conflitos entre o casal, segundo ela, é o modelo de criação de cada um, que se torna mais visível após o nascimento do filho, quando começam alguns conflitos sobre a forma de criação dele. “O que é preciso entender é que, quando duas pessoas se casam, devem juntar seus modelos de criação e criar um novo, único, que seja apenas dos dois, sem que prevaleça nenhum modelo (do marido ou da esposa). Na verdade, existe um conjunto de coisas e situações que fazem com que o casal chegue ao ponto de pedir a separação, e entre elas estão a falta de companheirismo, de respeito, de comprometimento com o relacionamento e de diálogo (essencial para a compreensão das situações estressantes), causando assim um distanciamento entre o casal e a falta de tolerância para com algumas atitudes do outro. Normalmente são situações (mágoas, discordâncias etc.) que perduram por muito tempo, até anos, e nunca foram resolvidas de maneira adequada”, conclui.

Brasileiros no Japão

 

                    Embora o processo de divórcio tenha sido simplificado no Brasil desde janeiro, quando entrou em vigor a Lei 11441/2007, que institui a separação consensual e o divórcio direto pela via extrajudicial, bem como o inventário e a partilha consensual, os brasileiros residentes no Japão ainda não poderão usufruir dessa facilidade, uma vez que, nesse processo, as partes se fariam representar por procuradores nomeados em procuração pública, o que foi vetado pela Corregedoria Geral de Justiça. “Mas essa situação poderá ser revertida a qualquer momento”, explica a advogada Michelle Marie Hiromi Sacchi, de São Paulo, acrescentando que para usufruir da referida lei não poderá haver incapazes envolvidos e o divórcio direto consensual pela via extrajudicial será realizado pelo tabelião do cartório de notas com a lavratura de escritura pública, sendo indispensável a presença do advogado.

Michelle esclarece que a obtenção do divórcio ocorre de duas formas: conversão de separação judicial em divórcio, que somente poderá ser requerida depois de decorrido um ano do trânsito em julgado da sentença que houver decretado a separação judicial, e o divórcio direto, que ocorre quando há separação de fato há mais de dois anos. “Vale esclarecer que a lei dispõe a existência da separação judicial, que é o ato pelo qual se põe fim aos deveres do casamento, tais como vida em comum no domicilio conjugal, fidelidade, auxílio mútuo etc., enquanto o divórcio é o ato pelo qual se põe fim ao casamento; assim, para que os cônjuges contraiam novas núpcias (se casem novamente) é imprescindível o divórcio. É importante destacar ainda o divórcio litigioso, que ocorre quando uma das partes não aceita conceder ou não concorda com os termos do pedido de divórcio, mas a incidência dessa modalidade não é alta entre os dekasseguis”, diz ela, completando que os casais dekasseguis em sua maioria obtêm o divórcio direto de forma consensual (amigável) por estarem separados de fato há mais de dois anos, e em alguns casos já possuem outra família constituída.

                     Na opinião da advogada, o perfil dos casais dekasseguis está relacionada à busca de um objetivo comum, em sua maioria reunir capital e obter estabilidade financeira. “A faixa etária média desses casais quando embarcam com destino ao Japão é de 28 a 30 anos. Ocorre que devido à vida profissional que desempenham os casais possuem pouco tempo para a convivência em família, uma vez que as mulheres normalmente trabalham em locais e horários diversos dos maridos, o que impossibilita pôr em prática a vida em comum na intimidade do lar, bem como socialmente, usufruindo de lazer, viagens e passeios, situações importantes para vivência do casal. Outro fator importante a mencionar é o fato de esses casais partirem para o mercado japonês jovens, portanto sem filhos, e quando conseguem se estabilizar financeiramente, após em média de dois a três anos de trabalho, resolvem ter filhos e, normalmente, as mulheres optam pelo retorno ao Brasil para darem à luz, motivadas pelo apoio familiar e assistência médica, o que inevitavelmente ocasiona a distância entre os casais”.

Outra situação cotidiana que causa o afastamento dos casais, segundo Michelle, é o fato de apenas um dos cônjuges partir para o mercado japonês, na maioria das vezes o homem, deixando a família no Brasil. “Devido ao alto custo de vida japonês e às remessas efetuadas para a família no Brasil, ele acaba por prolongar a estada no Japão, ocasionando muitas vezes uma distância afetiva”, calcula.
Tenho meu ex como melhor amigo
 
                     Não é para todos os casais que o processo de separação é dolorido. A brasileira, moradora em Nagoya, Selma Domingues, 40 anos, dos quais metade neste arquipélago, ficou dez anos casada e está separada há oito. “Nossa separação foi tranqüila porque viramos amigos e achamos melhor nos separarmos, mas foi tudo muito natural, sem nenhum trauma. Logo depois da separação ele pediu transferência e foi morar em Tokyo, e eu decidi ficar aqui mesmo para cuidar de nossa filha”, explica Selma. Ela complementa contando que “entre nós existe uma pessoa, a mais importante para nós, que é nossa filha. E existe muito respeito. Eu tenho meu ex-marido como melhor amigo”. Para Selma, o período de casamento foi muito bom, tem ótimas lembranças e o mais importante é que mesmo depois de separados ele é um pai presente, além de ajudar no orçamento doméstico por vontade própria. “Eu me sinto abençoada por não ter tido problemas, pois vejo muitos casos de separação e alguns são dramáticos”, finaliza.
 
 
Como requerer o divórcio?

Segundo a advogada Michelle Marie Hiromi Sacchi, os procedimentos legais básicos para realização do divórcio de brasileiros residentes no Japão são:
-Constituir advogado que poderá ser comum para ambas as partes;
-nomear um procurador para representar cada cônjuge. Tal ato deverá ser realizado por procuração pública perante o Consulado;
-sendo o divórcio consensual direto, deverão providenciar a declaração de duas ou três testemunhas que afirmarão, sob as penas da lei, que conhecem o casal, que está separado de fato há mais de dois anos. Esse depoimento deverá ser consularizado pelo declarante;
-providenciar documentos tais como certidão de casamento, RG, CPF, além de certidão de nascimento dos filhos, se houver;
-havendo filhos menores, deverão decidir os cônjuges com relação à guarda, visitas, alimentação etc.;
-se houver bens em comum será necessário decidir se a partilha será feita no divórcio ou posteriormente.
 
Observação: Cada caso de divórcio requer um parecer jurídico, portanto as situações aqui esboçadas não são regras.

* Adriana Takahashi, Psicóloga Clínica. Site: www.adrianatakahashi.com.br

 

25 de janeiro de 2011

Sobre a solidão, por Rubem Alves

Gosto muito desse artigo do Rubem Alves. Espero que você também goste.

Aproveite a leitura e reflita sobre o que é, como é e qual o significado para você em estar e ficar sozinho.

http://www.rubemalves.com.br/asolidaoamiga.htm

22 de janeiro de 2011

Reportagem – Para ganhar, às vezes é preciso perder – Dez/2006

Momentos
Para ganhar, às vezes, é preciso perder
São José do Rio Preto, 21 de dezembro de 2006

Fabíola Zanetti

Quem gosta de perder algo ou alguém? Boa parte das pessoas não se encontra preparada para isso e, na maioria das vezes, não pára para refletir que, em alguns casos, perder é ganhar. As perdas e os ganhos fazem parte de um mesmo processo e não há como escalar o crescimento pessoal sem passar por momentos de renúncia e sofrimento. “A primeira perda tem início no nascimento, quando perdemos aquele lugar aconchegante e quentinho que era a barriga da mãe e ganhamos a oportunidade de estar nesse mundo”, diz a psicóloga clínica Adriana Takahashi, de São Paulo. As pessoas passam por situações de transformação durante todo o ciclo da vida. Quando aprendem a andar, a fase escolar, o primeiro emprego, namorado. “Na verdade, essas situações fazem parte de um processo de maturação e crescimento pessoal e emocional”, diz. Tudo depende de como a pessoa enfrenta as fases mais cruciais da vida, de acordo com a psicóloga. Geralmente, as mudanças, sejam elas boas ou ruins, geram estresse, desencadeiam receio, medo de enfrentar o que é desconhecido.

“Porém, se os medos não forem combatidos, o indivíduo ficará estagnado, desanimado e até mesmo deprimido, sem forças para resolver os obstáculos ou desafios que surgem no decorrer da vida. Esses são os que preferem não arriscar e ficar com aquilo que têm, mesmo que seja ruim”, afirma a psicóloga. Por outro lado, há pessoas que lidam melhor com situações de perdas pelo fato de serem mais amadurecidas emocionalmente, pois percebem que existe um motivo por trás das situações. “São indivíduos capazes de refletir e perceber que estavam acomodados em um relacionamento que se arrastava por muito tempo, ou em um emprego que não supria as necessidades de crescimento e desenvolvimento pessoal”, afirma. Para lidar melhor com essas situações, tanto de perdas quanto de ganhos, é preciso se auto-conhecer, saber o que sente, como se sente, refletir sobre o assunto por mais dolorido que seja e não culpar os outros pela situação atual, segundo a psicóloga cognitivo-comportamental de Rio Preto, Irene Araújo Corrêa.

Segundo ela, quando optamos por algo abrimos mão de outra coisa. Assim, somos frutos das escolhas que fazemos e das perdas no caminho. Contudo, quanto mais grave é a perda, do ponto de vista da pessoa, maior o impacto e a dificuldade de se refazer. “Muitas vezes, nossas perdas, pequenas ou grandes, são inexplicáveis para nós mesmos. Tentamos explicar, justificar, entender. Mas esse processo não precisa ser um sofrimento. Se a pessoa adquire discernimento e uma visão clara da realidade, as escolhas e as possíveis perdas podem ser encaradas como uma fase de mudança.” Para Irene, algumas pessoas sofrem mais porque não priorizam o que é importante na situação. “É preciso virar a página, entender que o passado deve ficar para trás, caso contrário se esquece de viver e aproveitar os momentos bons. Assim, o sentimento de perda parece não passar.” Para iniciar uma possível mudança é preciso verificar o quanto algo está desconfortável. Analisar todas as circunstâncias, as suas reais possibilidades, motivações, perspectivas, expectativas e, principalmente, o próprio comportamento, pois ele pode contribuir para gerar as mesmas situações em uma nova escolha.

Dicas:

1- Evite as expectativas exageradas sobre as situações
2- Alguns ganhos dependem do entendimento da perda
3- Você não enxergará um ganho se não aceitar a perda
4- Tenha coragem e tente mudar sua postura
5- Se reestruture após uma perda, mantendo uma visão realista da situação
6- Pense em alternativas, em novos posicionamentos
7- Vire a página realmente
8- Entenda que ganhar ou perder é uma contingência da vida que tem como conseqüência a mudança
9 – Lembre-se: é tão importante saber ganhar quanto saber perder

Serviço:
– Adrianan Takahashi, psicóloga clínica – Fone (11) 9950-0566 /2099-2292